sexta-feira, 16 de abril de 2010

Devir-palavra...

Minha casa é povoada de livros. Tem muito mais livro do que gente e palavras ditas pela boca. Mas, de alguma maneira esses livros fazem com que tenha tanta gente por aqui. Gente que eu não conheço, que eu nunca li. Quanto mais olho para essa gente-livro mais sinto vontade de devorá-las pelos olhos... mas como me falta tempo...ou me falta ou não sei esculpí-lo, para usar as palavras de Tarkovski. É uma sensação de que por mais que eu os coma um a um não vai dar tempo de nutrir o corpo com tudo que ele precisa para ser palavra...
Estar todos os dias entressestextos faz-me sentir vazio...que paradoxo...a casa é cheia e eu sou vazio... dizer, dizer e dizer e querer e não ser... não ser gente-livro, não ser gente-lida... é escrever para os fantasmas do meu próprio pensamento, ser para o vento do cotidiano-sobrevivência, que passa e leva tudo que eu quero ser pra eu ter que recomeçar outra vez.
Mas o que é ser gente entretextos? É ser sempre querer mais ou se contentar com o que é? É resignar-se ou transformar-se dia a dia?
Sim, eu leio todos os dias, mas não o que eu queria...pura resignação... provas e trabalhos e fórmulas e petições... (Uma petição é um poema e um poema é uma petição?) ... vazio povoado de encontros em sonho... o sonho do encontro com a palavra maldita e bendita...
... Enquanto há sonho e desejo e querer ser, há caminho a ser construído ... por isso continuo construindo a estrada, desviando das pedras rolantes que teimam em querer passar por cima de mim, buscando romper o tic-tac e convertê-lo em fluidez, desviando a estrada, fazendo curvas entre os livros e palavras e gentes que habitam minha casa e nutrem os desejos... o devir-palavra... vazio e povoado...